|
A peça de hoje é o decreto aprovado em Roma pelos cardeais do Santo Ofício (o tribunal do Vaticano que julgava questões de fé, herdeiro da Inquisição romana). O original, em latim, está no arquivo do antigo Santo Ofício, hoje Dicastério para a Doutrina da Fé, aberto a pesquisadores em 1998.
O cabeçalho registra “Feria IV, Die 4 Aprilis 1894” (quarta-feira, dia 4 de abril de 1894, na contagem latina da Igreja). Quarta-feira era o dia em que os cardeais do tribunal se reuniam para votar os casos.
Edianne dos Santos Nobre traduziu o trecho central no artigo “Escrever a história através da culpa”, publicado na revista Horizonte, da PUC Minas, em 2015. O decreto diz:
“Que os pretensos milagres (...) de Maria de Araújo são prodígios vãos e supersticiosos, e implicam gravíssima e detestável irreverência e ímpio abuso à Santíssima Eucaristia.”
A frase seguinte invoca o juízo apostólico, a autoridade do papa exercida pelo tribunal: “o juízo apostólico os reprova e todos devem reprová-los”.
Para ler o decreto, vale seguir as quatro expressões que carregam a decisão:
1. Pretensos milagres: Roma não aceita a palavra milagre sem o adjetivo que a nega.
2. Prodígios vãos e supersticiosos: o que as testemunhas viram não tem origem divina.
3. Irreverência e ímpio abuso: a culpa recai sobre o uso da hóstia consagrada.
4. Juízo apostólico: a decisão vem do papa e vale para todos os católicos.
Em nenhuma linha o decreto explica como a hóstia ficou vermelha.
Em carta de 03/08/1894 ao internúncio (o representante diplomático do papa no Brasil) Girolamo Maria Gotti, Dom Joaquim listou as medidas: visitas a Maria de Araújo proibidas, escritos e medalhas recolhidos e queimados, e os panos devolvidos sob pena de excomunhão.
Os panos tinham sido roubados da Matriz do Crato (a igreja principal da cidade). Lira Neto registra que a Igreja mandou incinerar o tecido manchado; sem ele, nenhuma comparação de laboratório pôde ser feita depois, e a causa do vermelho segue sem explicação documentada.
As beatas foram cedendo. Em fevereiro de 1895, o bispo informou ao internúncio que cinco delas, entre elas Jahel Cabral e Maria da Soledade, tinham confessado “seus erros e desvios”. Um relatório de 1898 cita a beata Antônia Maria da Conceição, que chamou o próprio depoimento de “um tecido de mentiras”.
Maria de Araújo morreu em 1914. Em 1930, por ordem do vigário de Juazeiro, padre José Alves de Lima, o túmulo dela na capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro foi aberto e os restos desapareceram; a Igreja nunca disse para onde foram.
Padre Cícero recuperou o escapulário (faixa de pano bento usada sobre o peito e as costas) e o cordão do hábito da beata, e registrou protesto em cartório, sem resposta.
“Por que Roma decidiu sem mandar ninguém ao Juazeiro?”
Porque o Santo Ofício julgava pelo papel. Os cardeais decidiram sobre o pacote que saiu de Fortaleza em 1893 e votaram em Roma sem ouvir Maria de Araújo nem o padre Cícero.
O decreto completa 133 anos em 04/04/2027. Nessa data, reconfira no site da Diocese de Crato a fase do processo de beatificação de Padre Cícero, instalado em 30/11/2022.
|