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1894: Roma condena o milagre de Juazeiro

Duas comissões do bispo do Ceará examinam a hóstia da beata Maria de Araújo e chegam a pareceres opostos sobre o milagre.

Capela de Nossa Senhora das Dores no povoado de Juazeiro, no sertão do Ceará, com beatas de véu escuro diante do altar em 1891.

A capela das Dores, Juazeiro, 1891

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O Diário do Nordeste, de Fortaleza, publicou em 23/08/2022 uma coluna do jornalista Lira Neto, biógrafo de Padre Cícero, sob a manchete “Sem Maria de Araújo, não haveria Padre Cícero”. A frase devolve ao centro da história uma mulher que a Igreja passou décadas tentando tirar de cena.

Maria de Araújo era beata (mulher leiga que vivia de reza e caridade sob a direção de um padre, sem os votos de freira) no povoado de Juazeiro, no Cariri, sul do Ceará. Em março de 1889, na capela de Nossa Senhora das Dores, ela recebeu a comunhão das mãos do padre Cícero Romão Batista.

A hóstia (o pão consagrado que, para os católicos, se torna o corpo de Cristo) ficou vermelha na boca da beata. O padre e as testemunhas disseram ter visto sangue, e o líquido manchou os panos da comunhão.

O fenômeno voltou nas comunhões dos meses seguintes. Os panos manchados foram guardados numa caixa de vidro, e o povoado começou a receber romeiros (peregrinos que viajam até um lugar tido como santo) vindos das vilas do sertão.

Em julho de 1889, o monsenhor Francisco Monteiro, reitor do seminário do Crato, levou uma romaria até a capela e anunciou aos fiéis que aquele sangue era de Cristo. Com padres da região dando aval, a devoção ganhou nome próprio: o culto ao Sangue Precioso.

Médicos que examinaram a beata não acharam doença capaz de explicar o sangue na boca. Descreveram, segundo Lira Neto, uma mulher magra, fraca e mal alimentada.

Em Fortaleza, o bispo do Ceará, Dom Joaquim José Vieira, recusou o rótulo de milagre. Pela regra da Igreja, nenhum fato extraordinário podia receber culto antes de um exame da diocese, e em Juazeiro o culto crescia sem exame algum.

O Episódio do Dia acompanha os dois padres que Dom Joaquim mandou ao povoado em 1891 para interrogar as beatas, e o relatório que eles escreveram.

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I  O Episódio do Dia

Dois padres na capela das Dores

Juazeiro, setembro de 1891. No dia 8, chegou ao povoado a comissão de inquérito montada por Dom Joaquim José Vieira para examinar a hóstia da beata Maria de Araújo.

O delegado da comissão era o padre Clicério da Costa Lobo, doutor em teologia, professor do seminário maior e secretário do sínodo (assembleia do clero convocada pelo bispo) de 1888. O escrivão, encarregado de anotar cada palavra dita, era o padre Francisco Ferreira Antero, de 36 anos, nascido em Icó e ordenado em Roma.

Os dois assistiram às comunhões na capela e tomaram depoimentos sob juramento. Os autos guardam a fala de oito beatas ligadas ao padre Cícero Romão Batista, segundo a historiadora Edianne dos Santos Nobre, que estudou o processo nos arquivos do Vaticano.

Jahel Wanderley Cabral depôs em 15/09/1891. Tinha 31 anos, sabia ler e escrever, ao contrário da maioria das companheiras, e vinha de uma das famílias mais importantes da região. Contou à comissão ter visto Cristo derramar sangue cerca de dois anos antes dos fatos da capela.

Maria Leopoldina Ferreira da Soledade, de 29 anos, filha de família de posses do Crato, depôs dois dias depois. Narrou visões de almas de bispos e de um cardeal que saíam do purgatório pela capela do povoado.

O cardeal, disse ela, se apresentou como Pecci: Giuseppe Pecci, irmão do papa Leão XIII, morto em fevereiro de 1890.

O delegado se deixou impressionar. Em carta ao bispo de 13/09/1891, Clicério Lobo contou ter testemunhado, com o secretário e outras pessoas de confiança, fatos “de um caráter de sobrenaturalidade divina”.

O relatório final saiu em dezembro de 1891, no dia 22. A comissão concluiu, nas palavras de Lira Neto, que “seria impossível atribuir causas naturais ao prodígio”.

Os dois padres mandados para conferir o milagre voltaram com um relatório a favor dele.

Dom Joaquim recusou o documento. Alegou que os padres desobedeceram às instruções sobre como conduzir os exames e escreveu que a comissão, o padre Cícero e outros sacerdotes tinham sido enganados pelos artifícios de Maria de Araújo e das beatas que a imitavam.

Em abril de 1892, o bispo instalou uma segunda comissão, em rito sumário (procedimento abreviado, com menos formalidades). O encarregado foi o padre Antônio Alexandrino de Alencar, nascido em Assaré, padre desde 1874, com passagem pelas paróquias de Araripe, Quixadá e Crato. O secretário era o padre Manuel Cândido.

Alexandrino chegou à conclusão oposta. Declarou o padre Cícero culpado e Maria de Araújo cúmplice e “histérica”, segundo o resumo de Lira Neto. Em junho, escreveu ao bispo que a visão do cardeal tinha sido “fabricada” para “dispor bem o Santo Padre em favor de Juazeiro”.

Na carta de 09/08/1892, Alexandrino resumiu o caso para a diocese: “uma farsa imoralmente urdida e pessimamente executada”. Com o segundo laudo, Dom Joaquim tinha o documento de que precisava para punir o padre do Juazeiro.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

A carta de Fortaleza ao Juazeiro

Num 4 de novembro, uma segunda-feira de 1889, Dom Joaquim José Vieira escreveu de Fortaleza ao padre Cícero Romão Batista. A carta, citada por Edianne dos Santos Nobre, trazia duas queixas: o padre não tinha avisado a diocese dos fenômenos, e o bispo soubera deles pelos jornais.

Daquela carta até a decisão de Roma passaram-se quatro anos e cinco meses. Os marcos, em ordem:

• março de 1889: a hóstia fica vermelha

• 04/11/1889: a carta do bispo ao padre

• 08/09/1891: primeira comissão no Juazeiro

• abril de 1892: segunda comissão instalada

• agosto de 1892: Cícero proibido de pregar

• maio de 1893: o processo segue para Roma

• 04/04/1894: decreto do Santo Ofício

O dia exato da primeira comunhão divide as fontes. A linha do tempo publicada pelo jornal O Povo em 2026 fixa o dia 1º de março; Edianne dos Santos Nobre registra o dia 6.

Em agosto de 1892, segundo a mesma linha do tempo de O Povo, o bispo suspendeu o padre Cícero de pregar e de ouvir confissões e o proibiu de orientar os fiéis. A suspensão de ordens, na linguagem da Igreja, tira do padre parte ou o todo das funções do sacerdócio.

Pressionado pelos devotos e por parte do clero, Dom Joaquim mandou o processo a Roma em maio de 1893, aos cuidados do cardeal Raffaele Monaco La Valletta. Foram juntos o primeiro inquérito, os papéis do padre Alexandrino e a carta pastoral (texto do bispo dirigido aos fiéis da diocese) de 1893, que desacreditava os fatos do Juazeiro.

A resposta veio em abril de 1894 e confirmou a condenação. Para Edianne dos Santos Nobre, a pena chegou ali à suspensão a divinis (proibição de exercer qualquer ato do sacerdócio). A linha do tempo de O Povo põe em 1896 a proibição de celebrar missa; as duas fontes divergem sobre o ano.

Em 1897, Roma ordenou que o padre deixasse o Juazeiro sob ameaça de excomunhão (expulsão da comunhão da Igreja), e ele se mudou para Pernambuco. Em janeiro de 1898, embarcou para Roma para se defender e ficou até outubro; voltou dizendo-se absolvido, mas a punição continuou.

Padre Cícero viveu mais 40 anos depois do decreto e morreu em 1934 sem recuperar o direito pleno de exercer o sacerdócio.

O poder político dele, porém, cresceu. O povoado virou município em 1911, e o padre suspenso foi o primeiro prefeito.

Em 2015, uma carta do cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do papa Francisco, anunciou à Diocese de Crato a reconciliação da Igreja com o padre. Em 2022, o Vaticano autorizou a abertura do processo de beatificação.

 

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III  O Documento na Íntegra

O decreto da quarta-feira

A peça de hoje é o decreto aprovado em Roma pelos cardeais do Santo Ofício (o tribunal do Vaticano que julgava questões de fé, herdeiro da Inquisição romana). O original, em latim, está no arquivo do antigo Santo Ofício, hoje Dicastério para a Doutrina da Fé, aberto a pesquisadores em 1998.

O cabeçalho registra “Feria IV, Die 4 Aprilis 1894” (quarta-feira, dia 4 de abril de 1894, na contagem latina da Igreja). Quarta-feira era o dia em que os cardeais do tribunal se reuniam para votar os casos.

Edianne dos Santos Nobre traduziu o trecho central no artigo “Escrever a história através da culpa”, publicado na revista Horizonte, da PUC Minas, em 2015. O decreto diz:

“Que os pretensos milagres (...) de Maria de Araújo são prodígios vãos e supersticiosos, e implicam gravíssima e detestável irreverência e ímpio abuso à Santíssima Eucaristia.”

A frase seguinte invoca o juízo apostólico, a autoridade do papa exercida pelo tribunal: “o juízo apostólico os reprova e todos devem reprová-los”.

Para ler o decreto, vale seguir as quatro expressões que carregam a decisão:

1. Pretensos milagres: Roma não aceita a palavra milagre sem o adjetivo que a nega.

2. Prodígios vãos e supersticiosos: o que as testemunhas viram não tem origem divina.

3. Irreverência e ímpio abuso: a culpa recai sobre o uso da hóstia consagrada.

4. Juízo apostólico: a decisão vem do papa e vale para todos os católicos.

Em nenhuma linha o decreto explica como a hóstia ficou vermelha.

Em carta de 03/08/1894 ao internúncio (o representante diplomático do papa no Brasil) Girolamo Maria Gotti, Dom Joaquim listou as medidas: visitas a Maria de Araújo proibidas, escritos e medalhas recolhidos e queimados, e os panos devolvidos sob pena de excomunhão.

Os panos tinham sido roubados da Matriz do Crato (a igreja principal da cidade). Lira Neto registra que a Igreja mandou incinerar o tecido manchado; sem ele, nenhuma comparação de laboratório pôde ser feita depois, e a causa do vermelho segue sem explicação documentada.

As beatas foram cedendo. Em fevereiro de 1895, o bispo informou ao internúncio que cinco delas, entre elas Jahel Cabral e Maria da Soledade, tinham confessado “seus erros e desvios”. Um relatório de 1898 cita a beata Antônia Maria da Conceição, que chamou o próprio depoimento de “um tecido de mentiras”.

Maria de Araújo morreu em 1914. Em 1930, por ordem do vigário de Juazeiro, padre José Alves de Lima, o túmulo dela na capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro foi aberto e os restos desapareceram; a Igreja nunca disse para onde foram.

Padre Cícero recuperou o escapulário (faixa de pano bento usada sobre o peito e as costas) e o cordão do hábito da beata, e registrou protesto em cartório, sem resposta.

“Por que Roma decidiu sem mandar ninguém ao Juazeiro?”

Porque o Santo Ofício julgava pelo papel. Os cardeais decidiram sobre o pacote que saiu de Fortaleza em 1893 e votaram em Roma sem ouvir Maria de Araújo nem o padre Cícero.

O decreto completa 133 anos em 04/04/2027. Nessa data, reconfira no site da Diocese de Crato a fase do processo de beatificação de Padre Cícero, instalado em 30/11/2022.

 
 
 

Quiz da edição

Quem foi o padre encarregado da segunda comissão de inquérito sobre o milagre de Juazeiro, instalada em rito sumário em abril de 1892?

AClicério da Costa Lobo
BAntônio Alexandrino de Alencar
CFrancisco Ferreira Antero
DManuel Cândido

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