A resposta de ontem Para quem Martinelli vendeu o arranha-céu em 1934? Para o governo italiano de Benito Mussolini, por meio de um instituto oficial de crédito para italianos no exterior. Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra contra o Eixo, o governo de Getúlio Vargas confiscou o prédio como bem de inimigo, e o edifício passou a se chamar Edifício América. |
Palmeira, Paraná, 1890. Giovanni Rossi, agrônomo e veterinário nascido em Pisa em 1856, chega aos Campos Gerais para fundar uma comunidade anarquista. Tem 34 anos e um livro nas costas.
O livro é Un comune socialista (Uma comuna socialista), romance que Rossi publicou em 1878 com o pseudônimo Cardias. Nele, uma aldeia italiana abole o dinheiro e a propriedade, e a personagem Cecília dá nome ao sonho.
Antes do Brasil, Rossi tentou a ideia na própria Itália. Em 1887 dirigiu uma cooperativa agrícola em Cittadella, perto de Cremona, numa fazenda cedida por um proprietário simpático à causa. A cooperativa sobreviveu, mas sob regras de empresa comum, e Rossi quis algo mais radical.
A versão mais repetida diz que o imperador Pedro II leu o romance e ofereceu terras ao autor. Nenhum documento conhecido confirma o encontro; o certo é que a lei brasileira da época dava lotes a colonos europeus, e Rossi aproveitou a porta aberta.
O grupo embarcou em Gênova em fevereiro de 1890. Quando chegou ao Paraná, o Império já tinha caído, e a terra ficou garantida pelo governo republicano como lote colonial.
A rotina da colônia seguia o sino da manhã. Os homens iam para a roça e para o corte de lenha, as mulheres cuidavam da cozinha comum e da horta, e as crianças ficavam soltas entre os barracões, sem escola formal nos primeiros meses.
Uma escola apareceu depois, tocada pelos próprios colonos, com aulas em italiano. Ensinava a ler, a contar e a discutir ideias, e não tinha catecismo.
O primeiro inverno foi duro. Os Campos Gerais têm geada, solo ácido e capim nativo pouco fértil, e os recém-chegados conheciam a fábrica e a oficina e nunca tinham pegado num arado.
Na Cecília ninguém recebia salário: a comida saía do armazém comum, e cada um trabalhava no que a assembleia pedia.
A roça não bastava para pagar ferramentas, sal e tecido. Parte dos homens, então, aceitou empregos pagos fora da colônia, em obras de estrada e em serrarias da região, e trazia o dinheiro para o caixa coletivo.
O armazém comum tinha regra simples: cada família pegava o que precisava e anotava em caderno. O caderno servia para planejar a compra seguinte; ninguém era cobrado pelo que levava.
Esse arranjo criou a primeira fissura. Quem trabalhava fora ganhava em dinheiro vivo e passava semanas longe; quem ficava na roça sustentava a casa sem ver moeda.
A segunda fissura veio das famílias. Alguns casais chegaram com filhos pequenos e pouca paciência para assembleias longas, e preferiram tocar um lote próprio nas terras vizinhas.
A terceira veio da cobrança pela terra. O lote colonial não era doação: o governo do Paraná passou a cobrar as prestações, e o caixa comum não tinha como pagar.
Rossi registrou parte dessas tensões nos textos que mandava à Itália. Ele mesmo deixou a colônia em 1893 para trabalhar como agrônomo em estações agrícolas do Sul do país.
|