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1890: Giovanni Rossi funda uma colônia sem patrão no Paraná

Em Palmeira, um agrônomo de Pisa reúne imigrantes italianos numa terra sem dono, sem salário e sem cerca, e a experiência dura 4 anos.

Casas de madeira de colonos italianos nos campos de Palmeira, no Paraná, em 1890.

A Colônia Cecília em Palmeira, 1890

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“Un episodio d'amore nella colonia Cecilia”, publicou o agrônomo Giovanni Rossi em 1893, num folheto em italiano cujo título quer dizer um episódio de amor na Colônia Cecília. O texto contava a vida íntima de uma comunidade anarquista no interior do Paraná.

O folheto circulou entre militantes da Itália e da França. Descrevia uma mulher, dois homens e um arranjo sem casamento, combinado às claras entre os três e discutido diante dos vizinhos.

Rossi tinha motivo para escrever. Três anos antes, em fevereiro de 1890, ele deixara a Itália com um punhado de companheiros para provar no chão uma tese que até então só existia em papel.

A tese cabia numa linha: gente comum consegue lavrar a terra sem patrão, sem salário e sem propriedade privada, repartindo o que colhe conforme a necessidade de cada família.

O lugar escolhido ficava em Palmeira, nos Campos Gerais do Paraná, a uns 80 quilômetros de Curitiba. Era terra devoluta (terra pública sem dono registrado), que o governo destinava a imigrantes europeus.

Os primeiros a chegar eram poucos. Ergueram barracões de madeira, abriram roça de milho, feijão e batata e deram ao lugar um nome de mulher, Cecília, tirado da heroína de um romance utópico do próprio Rossi.

Nos meses seguintes vieram mais famílias, chamadas por cartas e por jornais anarquistas italianos. Havia sapateiros, alfaiates, pedreiros e operários de fábrica, quase nenhum lavrador de ofício.

No auge, a colônia somou perto de 200 moradores. Não havia polícia, juiz, igreja nem cartório; as decisões saíam de assembleias abertas, com voto de homens e mulheres.

Quatro anos depois, em 1894, ninguém mais morava em comum. Os colonos tinham se espalhado por Curitiba, por Palmeira e pelas fazendas da região, e as casas de madeira ficaram vazias.

O Episódio do Dia mostra quem era o homem que montou a colônia, como o trabalho se dividia e o que quebrou primeiro.

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I  O Episódio do Dia

Um agrônomo de Pisa no planalto

A resposta de ontem

Para quem Martinelli vendeu o arranha-céu em 1934?

Para o governo italiano de Benito Mussolini, por meio de um instituto oficial de crédito para italianos no exterior. Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra contra o Eixo, o governo de Getúlio Vargas confiscou o prédio como bem de inimigo, e o edifício passou a se chamar Edifício América.

Palmeira, Paraná, 1890. Giovanni Rossi, agrônomo e veterinário nascido em Pisa em 1856, chega aos Campos Gerais para fundar uma comunidade anarquista. Tem 34 anos e um livro nas costas.

O livro é Un comune socialista (Uma comuna socialista), romance que Rossi publicou em 1878 com o pseudônimo Cardias. Nele, uma aldeia italiana abole o dinheiro e a propriedade, e a personagem Cecília dá nome ao sonho.

Antes do Brasil, Rossi tentou a ideia na própria Itália. Em 1887 dirigiu uma cooperativa agrícola em Cittadella, perto de Cremona, numa fazenda cedida por um proprietário simpático à causa. A cooperativa sobreviveu, mas sob regras de empresa comum, e Rossi quis algo mais radical.

A versão mais repetida diz que o imperador Pedro II leu o romance e ofereceu terras ao autor. Nenhum documento conhecido confirma o encontro; o certo é que a lei brasileira da época dava lotes a colonos europeus, e Rossi aproveitou a porta aberta.

O grupo embarcou em Gênova em fevereiro de 1890. Quando chegou ao Paraná, o Império já tinha caído, e a terra ficou garantida pelo governo republicano como lote colonial.

A rotina da colônia seguia o sino da manhã. Os homens iam para a roça e para o corte de lenha, as mulheres cuidavam da cozinha comum e da horta, e as crianças ficavam soltas entre os barracões, sem escola formal nos primeiros meses.

Uma escola apareceu depois, tocada pelos próprios colonos, com aulas em italiano. Ensinava a ler, a contar e a discutir ideias, e não tinha catecismo.

O primeiro inverno foi duro. Os Campos Gerais têm geada, solo ácido e capim nativo pouco fértil, e os recém-chegados conheciam a fábrica e a oficina e nunca tinham pegado num arado.

Na Cecília ninguém recebia salário: a comida saía do armazém comum, e cada um trabalhava no que a assembleia pedia.

A roça não bastava para pagar ferramentas, sal e tecido. Parte dos homens, então, aceitou empregos pagos fora da colônia, em obras de estrada e em serrarias da região, e trazia o dinheiro para o caixa coletivo.

O armazém comum tinha regra simples: cada família pegava o que precisava e anotava em caderno. O caderno servia para planejar a compra seguinte; ninguém era cobrado pelo que levava.

Esse arranjo criou a primeira fissura. Quem trabalhava fora ganhava em dinheiro vivo e passava semanas longe; quem ficava na roça sustentava a casa sem ver moeda.

A segunda fissura veio das famílias. Alguns casais chegaram com filhos pequenos e pouca paciência para assembleias longas, e preferiram tocar um lote próprio nas terras vizinhas.

A terceira veio da cobrança pela terra. O lote colonial não era doação: o governo do Paraná passou a cobrar as prestações, e o caixa comum não tinha como pagar.

Rossi registrou parte dessas tensões nos textos que mandava à Itália. Ele mesmo deixou a colônia em 1893 para trabalhar como agrônomo em estações agrícolas do Sul do país.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

Quatro anos entre a roça e a estrada

A história da Colônia Cecília cabe em poucas datas, todas ligadas a Giovanni Rossi:

• 1878: sai o romance Un comune socialista

• 1887: cooperativa em Cittadella, na Itália

• Fevereiro de 1890: partida de Gênova

• 1891: chegam novas famílias

• 1893: Rossi publica o folheto e sai

• 1894: os colonos se dispersam

Em 1891 a colônia viveu seu melhor ano. Chegaram grupos de Gênova, de Parma e da Toscana, e o número de moradores passou de algumas dezenas para perto de duas centenas.

Com gente nova vieram ideias diferentes. Uns queriam dividir tudo; outros aceitavam a horta comum, mas guardavam a própria roupa, as próprias galinhas e o próprio dinheiro.

A colônia nunca teve regulamento escrito: cada conflito ia para a assembleia, e a assembleia decidia de novo.

Em 1893 começou no Sul a Revolução Federalista, guerra civil que opôs federalistas e republicanos e chegou a ocupar Curitiba no começo de 1894. Estradas fecharam, o comércio parou e os empregos fora da colônia sumiram.

Ao mesmo tempo, a cobrança das prestações da terra apertou. Sem o dinheiro das obras, o caixa comum secou, e as famílias com filhos foram as primeiras a sair para procurar trabalho pago.

A dispersão foi gradual. Alguns colonos ficaram em Palmeira como pequenos sitiantes, outros abriram oficinas em Curitiba, e um grupo seguiu para São Paulo, onde o movimento operário crescia.

Vários levaram o anarquismo na bagagem. Nas décadas seguintes, nomes ligados à Cecília apareceram em jornais operários e nas greves paulistas do começo do século 20.

Rossi passou anos trabalhando como agrônomo no Sul do Brasil, inclusive em Santa Catarina. Voltou para a Itália em 1907 e viveu até 1943, quando morreu em Pisa, a cidade onde nascera.

A colônia ganhou vida nova no cinema. O diretor francês Jean-Louis Comolli lançou em 1976 o filme La Cecilia, filmado na Itália, sobre a experiência de Palmeira.

 

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III  O Documento na Íntegra

O folheto sobre o amor livre

O documento desta edição é o folheto que Giovanni Rossi publicou em 1893, depois de deixar a colônia, com o título em italiano que abre esta edição.

O texto não trata de plantio nem de assembleia de trabalho. Trata do amor livre (relação amorosa sem casamento e sem posse de um parceiro sobre o outro), que os anarquistas defendiam e quase nunca punham à prova.

Rossi conta um caso dentro da colônia. Uma moradora, chamada no texto de Eleda, mantinha dois companheiros ao mesmo tempo: Annibale e o próprio autor, que assina como Cardias, o mesmo pseudônimo do romance de 1878.

O folheto registra o arranjo em etapas:

1. Os três combinam a relação às claras.

2. Os vizinhos ficam sabendo e discutem o caso.

3. O ciúme aparece e é tratado em conversa aberta.

4. Rossi conclui que a experiência foi possível.

O tom é de relatório científico. Rossi descreve o ciúme como sentimento aprendido, que pode ser desfeito com franqueza, e apresenta o próprio desconforto como dado a ser anotado.

Para Rossi, a colônia era um laboratório: a terra e o amor entravam no mesmo experimento.

O folheto escandalizou a imprensa católica e dividiu os próprios anarquistas. Uns viram coragem; outros acharam que o autor expôs a vida íntima de uma mulher para defender uma tese.

Eleda é a voz que o folheto não traz. O texto fala dela, mas não reproduz nenhuma frase escrita por ela, e não se conhece depoimento próprio que confirme ou conteste a versão de Rossi.

O folheto também mostra o limite do método. Rossi admite que o arranjo durou pouco e que a convivência dos três se desfez quando a colônia começou a esvaziar, mas não conta para onde Eleda foi depois, e nenhuma outra fonte conhecida registra o paradeiro dela.

O folheto foi reeditado na Itália e traduzido para outras línguas. Em português, aparece em coletâneas sobre a colônia e em estudos de história do anarquismo no Brasil.

“Por que a colônia se chamava Cecília?”

Porque Cecília é a heroína do romance Un comune socialista, que Rossi publicou em 1878. O nome da personagem virou o nome da terra em Palmeira.

A fundação da colônia faz 137 anos em fevereiro de 2027; os registros dos lotes coloniais de Palmeira estão no Arquivo Público do Paraná, em Curitiba, reconfira lá nessa data.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual escritora brasileira tinha um avô entre os colonos da Cecília?

 
 
Quiz da edição

Sob qual pseudônimo Giovanni Rossi publicou o romance Un comune socialista em 1878?

ACecília
BCardias
CPisa
DPalmeira

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