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Salvador, 1869. Antônio Francisco de Lacerda, comerciante e engenheiro baiano nascido em 1834, começa a escavar a base de uma torre no largo da Conceição da Praia, na Cidade Baixa.
Lacerda vinha de família de negociantes do porto e tinha estudado engenharia nos Estados Unidos, onde viu de perto os primeiros elevadores de passageiros. Trabalhou ao lado do irmão, Augusto Frederico de Lacerda, sócio no projeto.
Os dois pediram à província da Bahia a concessão (a licença pública para explorar o serviço) e a receberam com prazo e tarifa definidos. O dinheiro da obra saiu da própria família e de sócios do comércio.
O desafio era a rocha. Parte da torre foi fincada no paredão, e um túnel curto ligava o alto dela à rua da Cidade Alta, de modo que o passageiro desembarcava em terreno firme, sem ponte solta no ar.
A máquina usava a água como motor. Era um elevador hidráulico, movido pela pressão de água armazenada: um reservatório no alto enchia um tanque preso à cabine, e o peso extra a fazia descer enquanto a outra, mais leve, subia.
As duas cabines funcionavam como os pratos de uma balança. Quando a que estava embaixo chegava ao topo, a água era descarregada, e o ciclo recomeçava no sentido contrário.
Cada viagem de uma cabine para cima exigia que a outra descesse cheia de água: sem as duas, o sistema parava.
O ferro da estrutura veio em boa parte da Europa, desembarcado no mesmo porto que a torre serviria. Operários livres e escravizados trabalharam na montagem, como em quase toda obra pública baiana da época.
A inauguração de 8 de dezembro de 1873 caiu num dia santo da cidade, a festa de Nossa Senhora da Conceição da Praia, padroeira da igreja vizinha à torre. O largo estava cheio de fiéis, e muitos fizeram a primeira viagem por curiosidade.
O bilhete era pago na entrada, e a renda das passagens devolvia aos Lacerda o que tinham investido. Em poucos meses, a fila de comerciantes, caixeiros e carregadores virou parte da paisagem do largo.
A cidade não esperou decreto para rebatizar a obra. Na boca do povo, o Elevador Hidráulico da Conceição virou logo o elevador do Lacerda.
Antônio de Lacerda viveu até 1885. Em 1896, onze anos depois, a homenagem popular virou oficial: a torre ganhou nos papéis da cidade a designação de Elevador Lacerda, mantida até hoje.
O sobrenome ficou, e a família saiu do negócio. A concessão mudou de mãos nas décadas seguintes, e cada novo dono herdou a mesma obrigação de manter as cabines rodando todos os dias.
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