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1873: Salvador troca a ladeira por um elevador de 63 metros

Duas cabines movidas a água passam a ligar a Cidade Baixa e a Cidade Alta, e a obra ganha o sobrenome de Antônio de Lacerda.

A torre do elevador hidráulico erguida contra a escarpa de Salvador, ligando a Cidade Baixa à Cidade Alta, em 1873.

O elevador da Conceição, Salvador, 1873

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O Diário da Bahia, jornal publicado em Salvador desde 1856, levou às bancas em dezembro de 1873 a notícia de uma máquina sem par no Império: uma caixa de ferro e madeira subia gente pela encosta da cidade, puxada pela força da água.

A encosta é o traço que define Salvador. Um paredão de pedra e terra, com cerca de 70 metros de altura, corta a capital baiana em dois andares desde a fundação, em 1549.

Embaixo fica a Cidade Baixa, espremida entre o morro e a baía de Todos os Santos. Ali estavam o porto, os trapiches (armazéns de beira de cais), as casas de comércio e o vaivém dos navios que levavam açúcar e fumo.

Em cima fica a Cidade Alta, com o palácio do governo, a Câmara, as igrejas grandes e os sobrados das famílias ricas. Quem trabalhava embaixo e morava em cima subia todo dia a pé.

Subir significava enfrentar ladeiras íngremes de pedra solta, como a da Conceição e a da Preguiça. Quem podia pagar ia sentado numa cadeirinha de arruar, uma poltrona fechada carregada nos ombros por dois homens escravizados.

Cargas subiam por guindastes de madeira, herança dos jesuítas, que desde o século 16 içavam fardos do porto até o colégio no alto do morro. Gente, porém, não subia de guindaste.

Na manhã de 8 de dezembro de 1873, essa rotina ganhou atalho. No largo da Conceição, ao pé do paredão, uma torre esguia abria as portas de duas cabines, e cada uma percorria mais de sessenta metros na vertical.

O passageiro entrava ao lado do mercado e saía, pouco depois, na beira da praça do alto, sem suar a camisa nem pagar carregador.

A obra se chamava Elevador Hidráulico da Conceição. Os baianos, porém, preferiram chamar a torre pelo sobrenome de quem a ergueu.

O Episódio do Dia acompanha os quatro anos de obra e mostra como a água fazia as cabines subir.

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I  O Episódio do Dia

Quatro anos de obra contra o paredão

Salvador, 1869. Antônio Francisco de Lacerda, comerciante e engenheiro baiano nascido em 1834, começa a escavar a base de uma torre no largo da Conceição da Praia, na Cidade Baixa.

Lacerda vinha de família de negociantes do porto e tinha estudado engenharia nos Estados Unidos, onde viu de perto os primeiros elevadores de passageiros. Trabalhou ao lado do irmão, Augusto Frederico de Lacerda, sócio no projeto.

Os dois pediram à província da Bahia a concessão (a licença pública para explorar o serviço) e a receberam com prazo e tarifa definidos. O dinheiro da obra saiu da própria família e de sócios do comércio.

O desafio era a rocha. Parte da torre foi fincada no paredão, e um túnel curto ligava o alto dela à rua da Cidade Alta, de modo que o passageiro desembarcava em terreno firme, sem ponte solta no ar.

A máquina usava a água como motor. Era um elevador hidráulico, movido pela pressão de água armazenada: um reservatório no alto enchia um tanque preso à cabine, e o peso extra a fazia descer enquanto a outra, mais leve, subia.

As duas cabines funcionavam como os pratos de uma balança. Quando a que estava embaixo chegava ao topo, a água era descarregada, e o ciclo recomeçava no sentido contrário.

Cada viagem de uma cabine para cima exigia que a outra descesse cheia de água: sem as duas, o sistema parava.

O ferro da estrutura veio em boa parte da Europa, desembarcado no mesmo porto que a torre serviria. Operários livres e escravizados trabalharam na montagem, como em quase toda obra pública baiana da época.

A inauguração de 8 de dezembro de 1873 caiu num dia santo da cidade, a festa de Nossa Senhora da Conceição da Praia, padroeira da igreja vizinha à torre. O largo estava cheio de fiéis, e muitos fizeram a primeira viagem por curiosidade.

O bilhete era pago na entrada, e a renda das passagens devolvia aos Lacerda o que tinham investido. Em poucos meses, a fila de comerciantes, caixeiros e carregadores virou parte da paisagem do largo.

A cidade não esperou decreto para rebatizar a obra. Na boca do povo, o Elevador Hidráulico da Conceição virou logo o elevador do Lacerda.

Antônio de Lacerda viveu até 1885. Em 1896, onze anos depois, a homenagem popular virou oficial: a torre ganhou nos papéis da cidade a designação de Elevador Lacerda, mantida até hoje.

O sobrenome ficou, e a família saiu do negócio. A concessão mudou de mãos nas décadas seguintes, e cada novo dono herdou a mesma obrigação de manter as cabines rodando todos os dias.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

Quatro gerações de cabines na mesma escarpa

A torre de 1873 foi trocada, reformada e ampliada sem nunca sair do lugar. Os marcos dela, em ordem:

• 1869: começa a obra no largo

• 08/12/1873: abrem as duas cabines

• 1896: vira Elevador Lacerda

• 1906: a água dá lugar à eletricidade

• 1930: inaugura a torre art déco

• 2006: tombamento pelo Iphan

A troca de 1906 aposentou os tanques de água. Motores elétricos passaram a puxar as cabines por cabos, num ritmo mais rápido e sem depender do abastecimento do reservatório no alto.

Salvador crescia, e o tráfego crescia junto. Bondes chegavam aos dois andares da cidade, e o elevador passou a fazer a ponte entre as linhas de baixo e as de cima.

Em 1930, a velha estrutura de ferro saiu de cena. No lugar dela subiu uma torre de concreto armado em estilo art déco (o desenho geométrico, de linhas retas, da moda nos anos 1920 e 1930), com 72 metros e quatro cabines.

A torre nova trouxe também uma passarela no topo, que avança sobre o vazio e leva o passageiro direto à praça Tomé de Sousa, ao lado do palácio do governo.

O mirante da passarela virou atração própria. Dali se vê o Mercado Modelo, o forte de São Marcelo no meio da água e a baía inteira, e muita gente sobe só para olhar.

A viagem que no século 19 levava minutos de ladeira encolheu para cerca de meio minuto dentro da cabine.

A tarifa foi parar no centro da vida da cidade. Por décadas, o preço da subida entrou nas reclamações da imprensa baiana, porque quem morava em cima e trabalhava embaixo pagava duas viagens por dia.

Hoje a operação é da Prefeitura de Salvador, e a passagem custa poucos centavos. As quatro cabines seguem em serviço, cada uma com ascensorista.

Em 2006, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, inscreveu o elevador entre os bens tombados do país, isto é, protegidos por lei contra demolição e reforma que mude a feição original.

O tombamento chegou tarde para a primeira torre. Dela não sobrou peça de ferro à vista, e o que a cidade guarda da obra de 1873 está em gravuras, fotografias e no traçado do túnel na rocha.

 

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III  O Documento na Íntegra

A planta de uma cidade em dois andares

A peça desta edição é uma planta de Salvador do fim do século 19, das que as repartições da província mandavam gravar para registrar ruas, largos e obras públicas.

Nela, a cidade aparece como duas faixas paralelas. Uma corre junto à água; a outra corre no alto, separada da primeira por uma linha grossa de hachuras, o traço miúdo e cruzado com que os desenhistas marcavam o declive.

A planta se lê em quatro passos. Quem abre uma confere, nesta ordem:

1. A linha de hachuras, que mostra onde o paredão é mais íngreme.

2. As ladeiras, desenhadas como fios tortos que cortam a encosta.

3. O largo da Conceição, embaixo, ao lado da igreja da padroeira.

4. O ponto marcado como elevador, o único traço reto da encosta.

Na planta, todas as ligações entre os dois andares serpenteiam pela encosta; o elevador é a única que sobe em linha reta.

O primeiro passo explica a escolha do local. O paredão é mais vertical justamente atrás do largo da Conceição, e ali uma ladeira nova teria de dar voltas demais para vencer a altura.

O segundo passo explica o sucesso. As ladeiras somavam centenas de metros de caminho para subir o mesmo desnível que a cabine vencia de uma vez.

O terceiro passo explica o público. O largo ficava colado ao porto e ao mercado, onde estavam os passageiros prontos para pagar a subida.

A igreja ao lado também conta. A Conceição da Praia reunia a maior festa religiosa da Cidade Baixa, e a torre nasceu já apontada para a multidão que descia do alto todo mês de dezembro.

A planta não traz horário, tarifa nem número de viagens. Esses dados ficavam nos relatórios dos presidentes da província, os governadores da época, que prestavam contas à Assembleia todo ano.

O quarto passo mostra a cidade do futuro. Depois do elevador, outros atalhos mecânicos apareceram na encosta, como os planos inclinados, cabines que sobem sobre trilhos pela rampa do morro.

Gravuras e fotografias da torre de 1873 estão no acervo da Fundação Gregório de Mattos, órgão de cultura da Prefeitura de Salvador, e no Arquivo Público do Estado da Bahia.

A primeira subida completa 153 anos em 08/12/2026, dia da festa da Conceição da Praia; reconfira o horário de funcionamento na página da Prefeitura de Salvador nessa data.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual construtora dinamarquesa ergueu a torre de concreto do Elevador Lacerda inaugurada em 1930?

 
 
Quiz da edição

Qual era o mecanismo original que fazia as duas cabines do Elevador Lacerda subirem e descerem, inauguradas em dezembro de 1873?

AVapor gerado por uma caldeira a lenha no topo da torre
BPeso de água armazenada em um reservatório, que enchia o tanque de uma cabine e puxava a outra para cima
CMotores elétricos ligados a cabos de aço
DBois girando uma roda na base da torre

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