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1836: Neto proclama a República Rio-Grandense no Seival

Um dia depois de vencer no arroio Seival, um coronel farroupilha separa o Rio Grande do Império e Piratini vira capital.

A tropa farroupilha a cavalo forma no campo dos Menezes para ouvir a proclamação da República Rio-Grandense, em 1836.

A tropa de Neto no campo dos Menezes, 1836

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Na ordem do dia assinada em 11 de setembro de 1836, no campo dos Menezes, perto do arroio Seival, o coronel Antônio de Sousa Neto escreveu à tropa: “Ontem obtivestes o mais completo triunfo sobre os escravos da Corte do Rio de Janeiro”. A frase, lida em voz alta diante dos cavaleiros, abria o texto que tirava o Rio Grande do Sul do Império.

O triunfo tinha nome e lugar. Na véspera, a cavalaria de Neto atacou as forças legalistas (as que defendiam o governo imperial) do coronel João da Silva Tavares, num campo aberto do sul da província, e as pôs em fuga.

A guerra já durava quase um ano. Em 20 de setembro de 1835, estancieiros armados entraram em Porto Alegre e derrubaram o presidente da província, Antônio Rodrigues Fernandes Braga, nomeado pelo Rio de Janeiro.

O movimento ganhou o apelido de Farroupilha, de farrapo, o pano rasgado. Os adversários zombavam da roupa gasta dos rebeldes, e os rebeldes adotaram o nome com orgulho.

Até aquele setembro, os chefes falavam em reforma, não em separação. Pediam presidente escolhido por gente da terra e menos imposto sobre o charque (a carne salgada e seca ao sol que sustentava as estâncias gaúchas).

O charque do Rio Grande perdia mercado para o de Montevidéu e Buenos Aires, que entrava nos portos brasileiros pagando pouca taxa. O sal que o estancieiro usava para salgar a carne, ao contrário, chegava caro.

Neto decidiu ir adiante sem esperar ordem de Porto Alegre. Reuniu a 1ª Brigada de Cavalaria no campo, mandou ler a proclamação e ouviu os vivas à república.

Os oficiais assinaram ali mesmo, sobre o pasto. Não havia capital, presidente nem constituição. Havia uma tropa a cavalo e um papel de uma página.

Em poucas semanas, a república ganharia sede numa vila de colinas e casario baixo, Piratini, e um presidente que estava preso no dia em que foi escolhido.

O Episódio do Dia mostra como a vitória do Seival virou país em 24 horas e por que o coronel não esperou pelo comandante da revolta.

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I  O Episódio do Dia

Vinte e quatro horas entre a vitória e a república

A resposta de ontem

Quem ergueu a torre de concreto do Elevador Lacerda em 1930?

Foi a Christiani & Nielsen, empresa de engenharia fundada em Copenhague e especializada em concreto armado. Ela trocou a estrutura de ferro de 1873 pela torre art déco de 72 metros e quatro cabines, a mesma silhueta clara vista hoje da baía de Todos os Santos, protegida pelo Iphan desde 2006.

Campo dos Menezes, 11 de setembro de 1836. O coronel Antônio de Sousa Neto, comandante da 1ª Brigada de Cavalaria farroupilha, forma a tropa diante das barracas e proclama a República Rio-Grandense, um Estado separado do Império do Brasil.

Neto era estancieiro na região de Bagé e soldado desde as guerras do Prata, os conflitos pela Banda Oriental, o território que virou o Uruguai. Conhecia o pampa palmo a palmo e comandava homens que criavam gado nas mesmas terras.

O combate da véspera explica a pressa. Em 10 de setembro, Silva Tavares, estancieiro de Bagé fiel ao Império, perdeu o campo depois de uma carga de lanceiros e deixou prisioneiros, cavalos e armas para trás.

Nas fileiras farroupilhas lutavam também os lanceiros negros, homens escravizados que entraram na tropa com promessa de liberdade. A lança comprida, usada a galope, era a arma que decidia combate em campo aberto.

O chefe da revolta não estava ali. Bento Gonçalves da Silva, coronel nascido em Triunfo, às margens do rio Jacuí, cercava Porto Alegre, retomada pelos legalistas em junho de 1836.

Neto agiu por conta própria. A Regência, o governo que mandava no Brasil enquanto o imperador Pedro II era criança, não oferecia acordo, e os oficiais da brigada passaram a noite da vitória discutindo a separação.

A república nasceu de uma brigada a cavalo, sem consulta ao chefe da revolta nem a qualquer câmara municipal.

A notícia correu o pampa por mensageiros. Bento Gonçalves soube no cerco e decidiu levar parte da tropa para o sul, ao encontro de Neto.

Não chegou. Em 4 de outubro de 1836, na ilha do Fanfa, no rio Jacuí, foi cercado pelas tropas imperiais e se rendeu. Mandado para o Rio de Janeiro, acabou no Forte do Mar, em Salvador, uma fortaleza redonda plantada na baía de Todos os Santos.

Os rebeldes não esperaram a soltura. Em 6 de novembro de 1836, a Câmara de Piratini reuniu os chefes farroupilhas, aclamou Bento Gonçalves presidente da república, mesmo preso, e fez da vila a sede do governo.

Piratini tinha três vantagens. Ficava no alto das coxilhas (as colinas suaves do pampa), longe do litoral vigiado pela Marinha imperial e perto das estâncias que alimentavam a brigada de Neto.

Enquanto o eleito seguia na Bahia, o vice José Gomes de Vasconcelos Jardim governou em seu lugar.

Em setembro de 1837, Bento Gonçalves fugiu do Forte do Mar a nado, até um barco que o esperava na baía. Atravessou o país disfarçado e, no fim daquele ano, tomou posse em Piratini.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

Nove anos de república no pampa

A república proclamada no campo dos Menezes durou quase uma década. Os marcos dela, em ordem:

• 20/09/1835: farrapos tomam Porto Alegre

• 10/09/1836: vitória no arroio Seival

• 11/09/1836: Neto proclama a república

• 06/11/1836: Piratini vira capital

• Julho de 1839: nasce a República Juliana

• 01/03/1845: Paz de Ponche Verde

Em Piratini, o governo montou ministérios, cobrou impostos nas estâncias e passou a imprimir um jornal oficial, O Povo, a partir de 1838. A bandeira escolhida, em faixas verde, vermelha e amarela, é a mesma que o Rio Grande do Sul usa hoje.

A república queria um porto. Sem saída para o mar, dependia de contrabando pela fronteira com o Uruguai para vender charque e comprar pólvora.

O italiano Giuseppe Garibaldi, exilado no Brasil depois de conspirar contra o rei do Piemonte, entrou na guerra para resolver o problema. Em julho de 1839, com David Canabarro, tomou Laguna, em Santa Catarina, e ali nasceu a República Juliana, aliada da gaúcha.

Laguna caiu de volta em novembro do mesmo ano. Garibaldi saiu de lá com Anita, a catarinense Ana Maria de Jesus Ribeiro, que lutou ao seu lado até o fim da vida.

Em 1842, o Rio de Janeiro mandou para o sul Luís Alves de Lima e Silva, então barão de Caxias, como presidente da província e comandante das armas. Ele combinou ofensiva com negociação.

A paz saiu de um acordo assinado pelos dois lados, sem rendição incondicional dos rebeldes.

Pelo tratado de Ponche Verde, de 1º de março de 1845, os farroupilhas receberam anistia, os oficiais entraram no Exército imperial com o mesmo posto e o Império assumiu dívidas da república.

Os lanceiros negros tiveram outro destino. Em 14 de novembro de 1844, no cerro de Porongos, a tropa deles foi atacada de surpresa pelos imperiais e massacrada. A promessa de liberdade ficou, para a maioria dos sobreviventes, no papel.

Antônio de Sousa Neto não aceitou voltar à vida de súdito. Mudou-se para o Uruguai, onde comprou estâncias, e só pegou em armas de novo na Guerra do Paraguai.

Ferido na batalha de Tuiuti, em 1866, foi levado a um hospital em Corrientes, na Argentina, e ali terminou a vida, a centenas de quilômetros do campo onde tinha proclamado a república trinta anos antes.

 

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III  O Documento na Íntegra

A ordem do dia lida no pasto

O documento de hoje é a proclamação que Neto mandou ler à 1ª Brigada no campo dos Menezes, datada de 11 de setembro de 1836. É curta, escrita para ser ouvida por homens a cavalo.

A frase central diz o que a tropa acabava de fazer:

“Proclamamos a independência desta província, a qual fica desligada das demais do Império e forma um Estado livre e independente, com o título de República Rio-Grandense.”

A linha é de Antônio de Sousa Neto, na proclamação do campo dos Menezes, de 1836. O texto se lê em quatro movimentos, nesta ordem:

1. A saudação aos “bravos companheiros da 1ª Brigada de Cavalaria”.

2. A vitória da véspera no Seival, apresentada como prova de força.

3. A acusação contra a Corte, chamada de invejosa da província.

4. A proclamação da república e a promessa de um manifesto às nações.

O texto proclama um país, mas não traz lei, fronteira nem nome de presidente: tudo ficou para depois.

O segundo movimento é o que dá sentido ao papel. Neto usa a vitória como argumento político: quem venceu no campo teria direito de decidir o governo.

O terceiro movimento repete a queixa econômica das estâncias. A Corte, escreve Neto, faz o sangue gaúcho correr enquanto tira proveito da riqueza da província.

O manifesto prometido no quarto movimento saiu mais tarde, já com o governo instalado em Piratini, e deu à república argumentos para pedir reconhecimento aos países vizinhos. Nenhum deles reconheceu. A república viveu quase dez anos sem um único embaixador estrangeiro em Piratini, sustentada pelo comércio de fronteira e pela lealdade das estâncias.

Os papéis da guerra estão hoje no Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, reunidos na Coleção Varela, montada pelo historiador Alfredo Varela no começo do século 20.

Em Piratini funciona o Museu Histórico Farroupilha, dedicado à guerra, numa vila que preserva o traçado de ruas da época da república. A proclamação completa 191 anos em 11/09/2027; reconfira nesse dia o horário de visita do museu na página da Prefeitura de Piratini.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Para qual cidade o governo farroupilha levou a capital quando saiu de Piratini?

 
 
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