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1759: a lei de Pombal expulsa os jesuítas de Salvador

Os padres saem sob escolta para o navio, e o inventário do colégio anota livros, engenho e escravizados.

Padres jesuítas descem sob escolta de soldados a ladeira do Colégio da Bahia, em Salvador, rumo ao navio em 1760.

O Colégio dos Jesuítas em Salvador, 1760

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“Desnaturalizados, proscritos e exterminados”, publicou a Secretaria de Estado do rei Dom José I, em Lisboa, na lei de 3 de setembro de 1759. As três palavras miravam os padres da Companhia de Jesus, a ordem religiosa fundada por Inácio de Loyola em 1540.

A data não era acaso. Um ano antes, na noite de 3 de setembro de 1758, a carruagem do rei tinha sido atingida por tiros numa estrada perto de Belém, em Lisboa. Dom José sobreviveu com um ferimento no braço.

O ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, então Conde de Oeiras e mais tarde Marquês de Pombal, acusou a família Távora e, junto com ela, os jesuítas que frequentavam a nobreza. A lei assinada no aniversário do atentado fechava a conta.

O texto mandava os padres sair de Portugal e de todas as terras da Coroa. Incluía o Brasil, onde a Companhia estava desde 1549, quando Manuel da Nóbrega desembarcou na Bahia com o primeiro governador-geral, Tomé de Sousa.

Em Salvador, a Companhia tinha o seu prédio mais imponente da colônia. O Colégio da Bahia ocupava um lado inteiro do Terreiro de Jesus, a praça alta da cidade, com igreja de pedra trazida de Portugal, salas de aula, botica (a farmácia do convento) e uma biblioteca famosa.

A lei viajou de navio pelo Atlântico. Antes dela, ordens anteriores de Lisboa já tinham posto os padres do colégio sob vigilância, proibidos de pregar, de confessar e de sair do prédio sem licença.

Quando o papel chegou, a cidade assistiu a uma cena sem precedente. Soldados cercaram o colégio, os padres foram contados um por um e os bens da ordem passaram para a mão do rei.

Um escrivão entrou com os ministros da Coroa e começou a anotar. Cada sala, cada livro, cada fazenda e cada pessoa escravizada que pertencia ao colégio ganhou uma linha no inventário.

O Episódio do Dia mostra como os padres passaram os últimos meses dentro do colégio cercado e quem os levou até o cais.

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I  O Episódio do Dia

O cerco ao Terreiro de Jesus

Salvador, fim de 1759. A Companhia de Jesus vivia no Colégio da Bahia como num quartel trancado. As portas que davam para o Terreiro de Jesus ficavam guardadas por soldados da guarnição da cidade, e ninguém de fora entrava sem ordem escrita.

O governo da Bahia estava com o vice-rei Marcos de Noronha, sexto Conde dos Arcos. Coube a ele cumprir as ordens de Lisboa, com o apoio dos desembargadores (juízes do tribunal da Relação, a corte de apelação da colônia) encarregados do sequestro dos bens.

Sequestro, na linguagem jurídica da época, era a tomada dos bens pelo Estado enquanto corria o processo. Nada podia ser vendido, levado ou escondido. Por esse motivo, o primeiro passo dos ministros foi lacrar as portas da biblioteca, da sacristia e dos depósitos.

Os jesuítas das outras casas da Bahia foram trazidos para o colégio. Vieram padres das aldeias indígenas do interior, dos engenhos e das residências do Recôncavo, a região de terras férteis em volta da Baía de Todos os Santos.

Reunidos no mesmo prédio, os religiosos dormiam em celas cheias e comiam sob vigilância. As aulas de latim, filosofia e teologia que o colégio dava aos filhos da elite baiana tinham parado.

A cidade sentiu a parada. Durante duzentos anos, o Colégio da Bahia foi a principal escola de Salvador. Ali tinha estudado o padre Antônio Vieira, o pregador mais conhecido da língua portuguesa no século 17.

A ordem que tinha educado a elite da Bahia por dois séculos saiu da cidade sem julgamento, por decisão de um ministro em Lisboa.

Os padres não tiveram processo individual. A lei os tratava como grupo, culpado em bloco, e o único direito que restou foi o de embarcar.

Os noviços (os jovens que ainda não tinham feito os votos definitivos) receberam uma escolha. Quem renunciasse à Companhia podia ficar no Brasil como leigo ou entrar em outra ordem. Parte deles aceitou; parte preferiu seguir com os padres.

Na manhã do embarque, os religiosos desceram a ladeira do Terreiro até a Cidade Baixa, onde ficava o porto. A escolta de soldados acompanhou o grupo pelas ruas, diante dos moradores.

Os navios saíram da Baía de Todos os Santos em 1760 rumo a Lisboa. Na chegada, os jesuítas estrangeiros e a maior parte dos portugueses foram mandados para os Estados Pontifícios, as terras governadas pelo papa na Itália. Um grupo menor ficou preso nos fortes da barra do Tejo, entre eles o de São Julião da Barra.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

Da lei de Lisboa ao cais da Bahia

A expulsão deixou marcas datadas na papelada da Coroa. Os marcos, em ordem:

• 03/09/1758: atentado contra Dom José I

• 19/01/1759: bens dos jesuítas sequestrados

• 03/09/1759: lei da expulsão assinada

• 1760: embarque dos padres em Salvador

• 1765: igreja do colégio vira catedral

O sequestro dos bens veio antes da lei. A ordem régia de janeiro de 1759 mandou pôr sob guarda as casas da Companhia em todo o reino, e a do Brasil chegou nos meses seguintes. Em Salvador, o inventário começou com o colégio ainda habitado.

A lista do patrimônio era longa. Além do prédio do Terreiro de Jesus, a Companhia mantinha fazendas de gado no sertão, roças de mandioca, casas de aluguel na cidade e engenhos de açúcar no Recôncavo.

O mais conhecido era o Engenho Sergipe do Conde, em Santo Amaro. Pertencia ao Colégio de Santo Antão, de Lisboa, mas era administrado pelos padres da Bahia. As contas dele estão entre os registros mais completos de um engenho colonial.

Nas fazendas e nos engenhos trabalhavam pessoas escravizadas, africanas e nascidas no Brasil. A Companhia era uma das maiores proprietárias de cativos da colônia, e o inventário as registrou com o mesmo método das cabeças de gado: nome, idade aproximada, ofício e valor.

O que aconteceu com essas pessoas depois da expulsão está documentado em parte. Os bens sequestrados foram a leilão nos anos seguintes, e os compradores levaram engenhos e fazendas com os trabalhadores escravizados dentro. As famílias nem sempre ficaram juntas, e os papéis do leilão raramente anotam para onde cada pessoa foi.

A biblioteca teve destino pior. Os livros ficaram anos fechados no prédio, sem cuidado, e uma parte se perdeu com a umidade e os cupins. O que sobrou foi disperso entre outras instituições e particulares.

O prédio dos jesuítas nunca mais voltou à ordem: virou catedral, hospital militar e, em 1808, sede da primeira escola de medicina do Brasil.

A igreja do colégio passou a ser a Sé de Salvador em 1765, função que guarda até hoje como Catedral Basílica. O edifício das salas e celas virou Hospital Real Militar.

Em 1808, com a chegada da família real portuguesa à Bahia, o príncipe regente Dom João criou ali a Escola de Cirurgia da Bahia, origem da atual Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia.

A Companhia de Jesus só voltou ao Brasil no século 19, depois de restaurada pelo papa Pio VII em 1814.

 

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III  O Documento na Íntegra

O inventário do Colégio

A peça escolhida para hoje é o inventário dos bens do Colégio da Bahia, feito pelos ministros da Coroa entre 1759 e 1760. São folhas de papel escritas à mão, rubricadas pelo escrivão uma a uma.

O documento segue a ordem de uma vistoria. O escrivão começa pela igreja e pela sacristia, passa pelas celas, pela botica e pela biblioteca, e só depois sai do prédio para listar fazendas, engenhos e casas.

Na igreja, cada peça de prata entra com o peso em marcos (unidade de peso para metais preciosos, perto de 230 gramas). Cálices, castiçais e lâmpadas aparecem descritos pela forma e pelo uso.

Na biblioteca, os livros são contados por estante e por assunto. Teologia, filosofia, direito canônico, gramática latina e livros de medicina usados pela botica dividem as mesmas folhas.

A leitura de um inventário assim pede método. Quem trabalha com essas folhas costuma seguir uma rotina parecida com esta:

1. Separar as folhas por ambiente do prédio.

2. Listar as unidades de medida e de moeda.

3. Transcrever sem corrigir a grafia do escrivão.

4. Conferir as somas com o total de cada lote.

5. Cruzar com os papéis do leilão posterior.

O inventário registra pessoas escravizadas na mesma folha dos bois e das caldeiras do engenho, com preço ao lado do nome.

A mesma frieza aparece na lista dos padres. O escrivão anota nome, idade e cargo de cada religioso, como quem conta a guarnição de um forte.

“Por que um inventário de bens virou fonte de história?”

Porque é o retrato mais completo da Companhia de Jesus no Brasil no momento em que ela deixou de existir aqui. O historiador Serafim Leite usou esses papéis nos dez volumes da “História da Companhia de Jesus no Brasil”, publicados entre 1938 e 1950.

Cópias e documentos do sequestro estão no Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa, e foram microfilmados pelo Projeto Resgate Barão do Rio Branco, que reuniu a papelada colonial portuguesa sobre o Brasil. Outra parte segue no Arquivo Público do Estado da Bahia, em Salvador.

A lei da expulsão completa 268 anos em 03/09/2027; reconfira o inventário do Colégio da Bahia no catálogo do Projeto Resgate, na página da Biblioteca Nacional, nessa data.

 
 
 

Quiz da edição

Em que data o governo de Dom José I assinou a lei que mandava os padres jesuítas saírem de Portugal e de suas colônias, incluindo o Brasil?

A19 de janeiro de 1759
B3 de setembro de 1758
C3 de setembro de 1759
D1765

Veja o ranking de quem mais acerta →

 

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