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1554: a casinha de 14 passos onde nasceu São Paulo

Treze jesuítas rezam a primeira missa no planalto de Piratininga, e a carta de Anchieta guarda o frio, a fome e o nome do colégio.

Casinha de taipa e palha dos jesuítas no alto da colina de Piratininga, em 1554.

A casinha jesuíta de Piratininga, 1554

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Em carta escrita em 1554 e endereçada a Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus (a ordem religiosa dos jesuítas), o irmão José de Anchieta deixou a data por escrito: “A 25 de janeiro do Ano do Senhor de 1554 celebramos, em paupérrima e estreitíssima casinha, a primeira missa, no dia da conversão do Apóstolo São Paulo.” Pelo santo do dia, a casa ganhou patrono.

A casinha ficava no alto de uma colina do planalto de Piratininga, nome tupi que quer dizer peixe seco. A colina se erguia entre dois rios, o Tamanduateí e o Anhangabaú, e dali os padres enxergavam a várzea alagada lá embaixo.

As paredes eram de taipa de mão, barro apertado numa trama de varas de madeira, e o teto era de palha. Anchieta mediu o cômodo com os próprios pés: catorze passos de comprimento por dez de largura.

A tradição conta treze jesuítas naquela manhã. Quem rezou a missa foi o padre Manuel de Paiva, superior do grupo. Anchieta, com 19 anos e ainda sem ordenação, servia como irmão e professor de latim.

Em volta da casinha não havia vila, rua nem muro. Havia mato, roça de mandioca e as aldeias dos tupiniquins, o povo tupi que vivia no planalto e que tinha aceitado a presença dos padres.

O começo foi de privação. Os jesuítas passaram o primeiro inverno no planalto com pouca roupa, quase nenhuma coberta e comida contada, dependendo da farinha e do peixe que os indígenas traziam.

O dia escolhido deu nome à obra. Por cair na festa da conversão de São Paulo, o colégio ganhou o nome de Colégio de São Paulo de Piratininga, e a povoação que cresceu em volta herdou o nome do apóstolo.

Quatro séculos e meio depois, a colina se chama Pátio do Colégio. Fica no centro da maior cidade do país, e uma reconstrução da igreja e do colégio jesuíta ocupa o mesmo terreno.

O Episódio do Dia volta alguns meses no tempo, até o litoral de São Vicente, para mostrar por que Manuel da Nóbrega mandou os padres subirem a serra.

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I  O Episódio do Dia

A subida da serra até a colina dos dois rios

A resposta de ontem

Para onde foi a capital farroupilha depois de Piratini?

Para Caçapava, hoje Caçapava do Sul, em 1839, quando as tropas imperiais apertaram o cerco na região de Piratini. A capital ainda mudaria de novo para Alegrete, em 1842, e ali ficou até a Paz de Ponche Verde, assinada em 1845 com o barão de Caxias.

São Vicente, 1553. Manuel da Nóbrega, chefe dos primeiros jesuítas do Brasil, chega à capitania de São Vicente, no litoral do atual estado de São Paulo. Tinha desembarcado na Bahia em 1549, na frota do governador-geral Tomé de Sousa.

Nóbrega procurava terra para uma missão estável. No litoral, as aldeias ficavam perto dos engenhos de açúcar, e os colonos capturavam indígenas para o trabalho escravo, o que espantava os povos a quem os padres queriam ensinar a doutrina cristã.

O planalto oferecia distância. Lá em cima vivia o cacique Tibiriçá, chefe tupiniquim aliado dos portugueses, numa aldeia chamada Inhapuambuçu. A tradição situa essa aldeia no alto onde hoje fica o Mosteiro de São Bento.

No mesmo planalto morava João Ramalho, português que chegara à região décadas antes dos jesuítas. Era casado com Bartira, filha de Tibiriçá, e circulava pelas aldeias como parente.

A ligação de Ramalho abria portas e, ao mesmo tempo, incomodava os padres. Nóbrega reprovava a vida dele com várias mulheres indígenas e os filhos mestiços que ele espalhava pelo planalto.

Em 1553, Tomé de Sousa elevou o povoado de Ramalho à vila de Santo André da Borda do Campo, na entrada do planalto, e deu a ele o posto de capitão.

A subida para o planalto era a parte dura. O caminho saía do litoral por uma trilha indígena íngreme na Serra do Mar, feita a pé, com a carga nas costas e a mata fechada dos dois lados.

Nóbrega escolheu Anchieta para o grupo. Nascido em 1534 em San Cristóbal de La Laguna, na ilha de Tenerife, nas Canárias, o rapaz chegara ao Brasil em julho de 1553 e sofria de um problema na coluna desde a adolescência.

A colina foi escolhida pela defesa. Tinha barrancos íngremes sobre os dois rios, água perto e vista larga da várzea, para enxergar de longe quem viesse.

O colégio nasceu como escola: a primeira tarefa dos padres no planalto era ensinar a ler, escrever e rezar aos meninos tupiniquins.

Para dar aula, Anchieta aprendeu a língua da aldeia e montou uma gramática do tupi. O livro saiu impresso em Coimbra em 1595 com o título “Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil”.

Em 1560, o governador-geral Mem de Sá mandou transferir a vila de Santo André para junto do colégio. A colina passou a ser a vila de São Paulo, e Santo André foi abandonada.

Em 9 de julho de 1562, guerreiros tupis, entre eles parentes do próprio Tibiriçá, atacaram a vila. O cacique comandou a defesa ao lado dos portugueses, e a vila resistiu.

Tibiriçá adoeceu no fim daquele ano e não se recuperou. Recebeu sepultura dentro da igreja do colégio, com honras de capitão, um enterro reservado a poucos naquela vila de taipa.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

Em 25 de janeiro, a cidade e o país mudam de rumo

A data da primeira missa voltou a marcar a história do Brasil outras vezes. Os marcos, em ordem:

• 25/01/1554: primeira missa em Piratininga

• 25/01/1835: Revolta dos Malês em Salvador

• 25/01/1934: decreto cria a USP

• 25/01/1954: festa do quarto centenário

• 25/01/1984: comício das Diretas na Sé

A Revolta dos Malês estourou na madrugada de 24 para 25 de janeiro de 1835, nas ruas de Salvador. Malê era o nome dado na Bahia aos africanos muçulmanos, do iorubá imale (muçulmano).

Os revoltosos eram africanos escravizados e libertos, a maioria nagôs, como se chamavam na Bahia os povos de língua iorubá. O levante foi marcado para o fim do Ramadã, o mês de jejum do islã.

Uma denúncia avisou as autoridades horas antes, e a tropa enfrentou os rebeldes antes do amanhecer. O historiador João José Reis, no livro “Rebelião escrava no Brasil”, de 1986, calcula em cerca de 600 os africanos que saíram às ruas.

A repressão veio com açoite, prisão e deportação para a África. A Bahia passou a vigiar os africanos libertos com leis mais duras nos anos seguintes.

Em 25 de janeiro de 1934, o interventor paulista Armando de Salles Oliveira assinou o decreto que criou a Universidade de São Paulo, no aniversário da cidade.

A USP juntou faculdades que já existiam, como a de Direito do Largo de São Francisco, a de Medicina e a Escola Politécnica, e criou uma nova Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, com professores trazidos da Europa.

Em 1954, a cidade festejou o quarto centenário. Para a data, o governo paulista devolveu o terreno do Pátio do Colégio à Companhia de Jesus, que reergueu ali a igreja e o colégio no desenho antigo.

A Praça da Sé, palco do comício das Diretas, fica a poucos minutos a pé da colina da primeira missa.

Em 25 de janeiro de 1984, o governador Franco Montoro abriu o palanque da Sé para pedir eleição direta para presidente, a campanha que ficou conhecida como Diretas Já.

A emenda do deputado Dante de Oliveira, que restabelecia o voto direto, foi à Câmara em 25 de abril de 1984. Teve 298 votos a favor, 22 a menos do que os 320 exigidos, e caiu.

O voto direto para presidente só voltou na eleição de 1989.

 

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III  O Documento na Íntegra

A carta de Anchieta a Roma

O documento de hoje é uma carta de Anchieta, enviada de Piratininga a Inácio de Loyola em 1554. Os jesuítas chamavam esse tipo de texto de quadrimestral, o relatório que cada casa da ordem mandava a Roma a cada quatro meses.

Anchieta escreveu em latim, a língua oficial da Companhia. A carta cobre de janeiro a setembro de 1554 e conta o primeiro inverno do colégio, as aulas e o contato com as aldeias.

O trecho mais citado descreve a casinha da primeira missa:

“Desde janeiro até o presente tempo estivemos, às vezes mais de vinte, numa casinha pobrezinha feita de barro e paus e coberta de palha.” (José de Anchieta, carta a Inácio de Loyola, 1554)

Na mesma frase, Anchieta dá à casinha seis usos, nesta ordem:

1. Escola, onde os meninos tupiniquins aprendiam a ler.

2. Enfermaria, para os doentes da casa e das aldeias.

3. Dormitório, no chão, sem cama para todos.

4. Refeitório, onde se dividia a comida contada.

5. Cozinha, com o fogo aceso dentro da palha.

6. Despensa, para a farinha e o pouco que sobrava.

A certidão de nascimento de São Paulo é um relatório interno de uma ordem religiosa, escrito em latim para ser lido em Roma.

A carta ficou guardada no arquivo da Companhia de Jesus. No Brasil, ganhou edição impressa em português em 1933, no volume “Cartas, informações, fragmentos históricos e sermões”, publicado pela Academia Brasileira de Letras.

O autor da carta viveu mais 43 anos. Anchieta foi ordenado padre, trabalhou no Rio de Janeiro e no Espírito Santo e terminou os dias em 9 de junho de 1597, na aldeia de Reritiba, hoje a cidade de Anchieta. O papa Francisco o declarou santo em 3 de abril de 2014.

“Por que a cidade comemora 25 de janeiro, e não o dia em que virou vila?”

Porque a vila veio depois e não tem dia exato registrado: a transferência de Santo André, ordenada por Mem de Sá, se deu ao longo de 1560. A missa de 1554 tem data, santo e testemunha por escrito, e a carta de Anchieta virou a prova da fundação.

São Paulo completa 473 anos em 25/01/2027; reconfira o horário da missa e da visita ao Museu Anchieta na página do Pátio do Colégio na semana da data. A cova de Tibiriçá já não está na igreja do colégio.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Onde estão hoje os restos do cacique Tibiriçá, enterrado na igreja do colégio em 1562?

 
 
Quiz da edição

Na casinha de taipa de Piratininga, em 25 de janeiro de 1554, quem celebrou a primeira missa?

AJosé de Anchieta
BManuel de Paiva
CManuel da Nóbrega
DTomé de Sousa

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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