|
Baía de Todos os Santos, 29 de março de 1549. A frota de Tomé de Sousa, fidalgo de 46 anos, lança âncora diante da Vila Velha, o povoado arruinado do antigo donatário. Cerca de mil pessoas descem à praia.
Quem esperava na areia era Diogo Álvares Correia, o Caramuru, náufrago português que vivia entre os tupinambás havia décadas, casado com a indígena Paraguaçu. Ele serviu de intérprete e obteve dos chefes das aldeias licença e braços para a obra.
Tomé não ficou na Vila Velha. Mandou o mestre de obras Luís Dias procurar um sítio mais seguro, e o escolhido foi o alto de uma escarpa íngreme sobre a baía, cerca de meia légua (uns três quilômetros) ao norte.
Lá em cima, a defesa vinha pronta. O paredão protegia o lado do mar, e vales fundos guardavam os flancos. Embaixo, na faixa estreita de praia, ficariam o porto e os armazéns.
O muro seguiu a técnica da taipa de pilão (terra úmida socada em fôrmas de madeira até endurecer). Pedra exigia pedreiros e cal em quantidade; barro havia de sobra no próprio terreno.
Os degredados pegaram o serviço pesado ao lado dos soldados. Indígenas das aldeias vizinhas também trabalharam, pagos em resgate, a troca por anzóis, facas e machados de ferro.
A cidade nasceu de barro socado porque o regimento cobrava velocidade, e a taipa subia em semanas onde a pedra levaria anos.
Manuel da Nóbrega, chefe dos seis jesuítas, escreveu aos irmãos de Portugal pouco depois de chegar. Numa carta, resumiu a tarefa da Companhia de Jesus na colônia:
“Esta terra é nossa empresa.” (Manuel da Nóbrega, carta aos padres de Coimbra, 1549)
Dentro da cerca de taipa subiram a casa do governador, a câmara, a cadeia, a alfândega e uma igreja coberta de palha. As casas dos moradores seguiram o mesmo modelo, paredes de barro e teto de folhas.
O muro tinha portas nas duas pontas, uma ao sul e outra ao norte, com baluartes de madeira onde ficava a artilharia trazida de Lisboa.
A chuva cobrou a conta da pressa. A taipa sem reboco sofria no inverno baiano, e trechos do muro desmancharam e tiveram de ser refeitos nos anos seguintes, enquanto o governador pedia ao reino mais cal e mais oficiais.
Mesmo assim, a cidade cumpriu o papel. Dali saíram socorros a outras capitanias, e o governo-geral passou a julgar, cobrar impostos e nomear funcionários para toda a costa.
Tomé de Sousa governou até 1553. Entregou o cargo a Duarte da Costa e voltou a Portugal, onde morreu anos depois. Salvador ficou como capital da colônia até 1763, quando a sede passou ao Rio de Janeiro.
|