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ED 019

14 Bis, sessenta metros que a França cronometrou

1906, Campo de Bagatelle: o 14 Bis decola sozinho e voa sessenta metros diante dos fiscais do Aeroclube da França, que assinam a ata.

O 14 Bis de Santos Dumont decola no Campo de Bagatelle, em Paris, em 23 de outubro de 1906.

Bagatelle, 1906: o 14 Bis deixa o chão

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O aparelho que a França chamou de Oiseau de Proie nasceu pendurado. Antes de tentar voar sozinho, a estrutura de bambu, pinho e seda foi amarrada sob o dirigível número 14, o balão alongado que Alberto Santos Dumont já usava sobre Paris, e levantada no ar para o inventor medir estabilidade sem risco de espatifar tudo no chão.

Daí saiu o nome que ficou. O aparelho era o anexo do balão 14, o 14 Bis, e a numeração de série de um projetista teimoso virou, por acidente, a marca registrada de uma máquina.

A forma do bicho confundia quem olhava de fora. A célula grande de caixas ficava atrás e o leme dianteiro ia na frente, o que fazia o conjunto parecer voar de costas, empurrado por uma hélice e conduzido por uma caixa que o piloto girava lá na ponta.

O piloto voava em pé, dentro de um cesto de vime, com o corpo preso a um sistema que inclinava as extremidades das asas quando ele deslocava o tronco. Não havia manche, não havia assento e não havia instrumento algum além do olho de quem estava dentro.

O motor veio de outra indústria. Um Antoinette de origem náutica, encomendado a Léon Levavasseur, foi montado no aparelho depois de uma primeira tentativa com potência menor, porque as corridas de teste em Bagatelle mostravam o mesmo resultado repetido: rodava, chacoalhava e não saía do chão.

Setembro trouxe o primeiro sinal de que a coisa era possível. Numa das corridas, as rodas deixaram o gramado por poucos metros e o aparelho caiu logo adiante, com dano em parte da estrutura e nenhuma marca cronometrada que valesse como prova diante de terceiros.

Era exatamente disso que se tratava. Havia um prêmio em jogo, oferecido por Ernest Archdeacon para quem cobrisse vinte e cinco metros em voo, e havia uma comissão do Aeroclube da França encarregada de medir, cronometrar e assinar o que visse.

O ponto do caso não era decolar. Era decolar na frente de gente autorizada a registrar, num campo aberto, com testemunha, régua e relógio, e sair de lá com papel na mão.

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I  O Episódio do Dia

A tarde em que a máquina saiu do chão sozinha

Depois de meses de corrida sem sair do gramado, o aparelho enfim teve plateia oficial e cronômetro ligado.

23 de outubro de 1906, Campo de Bagatelle, Bois de Boulogne, Paris. O 14 Bis é rebocado para a pista de grama no fim da tarde, cercado por curiosos, jornalistas e pelos fiscais da comissão de aviação do Aeroclube da França, que já tinham marcado a distância no terreno.

O procedimento estava combinado. Nada de trilho, nada de catapulta, nada de vento de rampa: o aparelho tinha que correr sobre as próprias rodas, no chão plano, e se descolar pela força do motor que carregava.

O motor Antoinette pega, a hélice puxa e o conjunto começa a correr sobre a grama. Depois de algumas dezenas de metros de corrida, o leme dianteiro é inclinado e o aparelho sobe, com as três rodas fora do solo ao mesmo tempo.

O voo foi baixo e curto. Poucos metros de altura, uma trajetória levemente instável, e um pouso que terminou com o trem de pouso danificado, sem ferimento no piloto e sem dúvida entre quem estava no campo.

O que ficou registrado naquela tarde:

·  Distância percorrida em voo: cerca de 60 metros
·  Altura estimada: entre 2 e 3 metros
·  Duração: pouco mais de 7 segundos
·  Prêmio conquistado: a taça oferecida por Ernest Archdeacon para o primeiro voo acima de 25 metros

Nenhum desses números seria história se a comissão do Aeroclube não estivesse ali com cronômetro, fita métrica e a obrigação de assinar embaixo. O que separou a tarde de Bagatelle de dezenas de tentativas anteriores em campo aberto foi a presença de quem tinha autoridade para atestar.

A homologação também exigia forma. A comissão registrou o tipo de aparelho, o método de decolagem, a distância medida no terreno e o tempo de voo, e o documento seguiu o mesmo trâmite de qualquer recorde esportivo da época.

Menos de três semanas depois, no mesmo campo e diante da mesma comissão, o aparelho repetiu a operação com folga. Foram cerca de 220 metros percorridos em pouco mais de 21 segundos, marca que entrou como o primeiro recorde de aviação homologado pela Federação Aeronáutica Internacional.

Ata da Comissão de Aviação do Aeroclube da França sobre o voo do aparelho de Alberto Santos Dumont no Campo de Bagatelle, com medição de distância e tempo.

Comissão de Aviação do Aeroclube da França, ata de 23 de outubro de 1906

O título do registro entrega o que estava em disputa. Não se tratava de contar uma proeza, e sim de medir um fenômeno diante de terceiros, no formato de prova esportiva, com regra escrita antes e resultado carimbado depois.

É por causa desse papel que o episódio se sustenta hoje. Sem a ata, restaria o relato de uma multidão em Paris dizendo que viu uma máquina subir, sem distância aferida, sem tempo e sem responsável pela medição.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

De Bagatelle a Kitty Hawk, a disputa que nunca fechou

O 14 Bis não era um pássaro de metal. Era uma armação leve de bambu e pinho, revestida de seda, montada com células de caixa que davam ao conjunto uma silhueta de estrutura de papel gigante subindo pelo próprio esforço.

A configuração ficou conhecida como canard, com a superfície de controle na frente do conjunto e a asa principal atrás. O arranjo dava resposta rápida ao comando, e a mesma rapidez tornava o aparelho difícil de manter estável quando a rajada batia de lado.

A linha do tempo do aparelho é curta:

·  1906, julho: o 14 Bis é testado pendurado no dirigível número 14
·  1906, setembro: uma corrida termina com pequeno salto e dano na estrutura
·  1906, outubro: o voo homologado em Bagatelle, diante da comissão
·  1906, novembro: o recorde de cerca de 220 metros, no mesmo campo

A disputa sobre quem voou primeiro nasceu ali e nunca foi encerrada. Nos Estados Unidos, Wilbur e Orville Wright já tinham feito o Flyer subir em dezembro de 1903, na praia de Kitty Hawk, e voado repetidas vezes nos anos seguintes em Dayton.

A diferença está no procedimento. Os Wright usavam trilho de lançamento e, em parte das operações, uma torre com peso que dava o empurrão inicial, além de aproveitarem o vento constante da costa da Carolina do Norte para ganhar sustentação.

O aparelho de Bagatelle decolou por meios próprios em terreno plano, sem trilho e sem contrapeso, e teve o feito medido por uma entidade independente na hora. Para a corrente que defende Santos Dumont, é essa combinação que faz o caso.

Do outro lado, o argumento é igualmente objetivo. Voo é voo, com ou sem plateia credenciada, e o Flyer voava havia três anos, com fotografia, testemunha e correspondência técnica farta a comprovar a operação repetida.

O que os dois lados raramente disputam:

·  Primeiro voo motorizado documentado: Flyer, dezembro de 1903, Kitty Hawk
·  Primeiro voo homologado por entidade esportiva na Europa: 14 Bis, outubro de 1906
·  Primeiro recorde reconhecido pela Federação Aeronáutica Internacional: novembro de 1906
·  Ponto em aberto: se decolagem assistida por trilho ou contrapeso descaracteriza o voo

A escolha entre as duas versões depende do critério, não do fato. Quem define voo como sustentação controlada por motor fica com Kitty Hawk; quem define voo como decolagem autônoma, aferida e homologada, fica com Bagatelle.

O que o Brasil fez depois com o episódio é outra história, escrita em placa de praça, nome de aeroporto, cédula e livro didático, muito além do que a ata de 1906 mediu naquele fim de tarde.

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III  O Documento na Íntegra

Onde a ata de 1906 e o 14 Bis podem ser vistos

O caso se confere em quatro balcões: os arquivos da entidade que homologou o voo, os acervos aeronáuticos brasileiros, as coleções francesas do período e a bibliografia técnica que reconstitui o aparelho.

No Aeroclube da França: ficam as atas da comissão de aviação do período, com o registro das medições feitas em Bagatelle, além do noticiário interno que acompanhou as tentativas semana a semana.

Na Federação Aeronáutica Internacional: está a homologação do recorde de novembro de 1906, primeira marca de aviação reconhecida pela entidade, com distância, tempo e categoria registradas.

No Museu Aeroespacial, no Rio de Janeiro: a Força Aérea Brasileira mantém acervo dedicado ao inventor, com peças, documentos e uma réplica do aparelho em escala real exposta ao público, no Campo dos Afonsos.

Na França: o Musée de l'Air et de l'Espace, em Le Bourget, guarda material aeronáutico do período e acompanha a produção francesa de motores e células que tornou possível a montagem do 14 Bis.

Na imprensa da época: os jornais franceses e brasileiros de outubro e novembro de 1906 trazem a cobertura do campo, a lista de presentes e a repercussão imediata, material hoje acessível por hemeroteca digital.

Na divergência: a distância exata do voo de outubro varia conforme a fonte, entre cerca de 50 e 60 metros, e a altura atingida nunca foi medida com instrumento, apenas estimada por observador em solo.

Ao citar o caso, use a ata, a distância medida, a data e a condição de decolagem autônoma, nunca a versão de manual de que o Brasil inventou o avião sozinho. O documento resiste à contestação; a frase pronta não resiste.

A documentação fecha o teste sob o dirigível, o salto de setembro, o voo homologado de outubro, o recorde de novembro e o prêmio pago pela comissão.

Fica em aberto o detalhe de oficina: quantos mecânicos montaram, ajustaram e consertaram a estrutura entre uma tentativa e outra, quanto custou cada reparo e quais nomes não entraram em nenhum registro.

O aparelho voou sessenta metros e caiu com o trem de pouso torto. O que atravessou o século não foi a distância, foi a assinatura de quem estava ali para medir.

"Quando dois países reivindicam o mesmo feito, o que decide a disputa: o que aconteceu antes ou o que foi registrado direito?"

 
 
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No voo homologado em Bagatelle, em 23 de outubro de 1906, quantos metros o 14 Bis percorreu no ar?

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