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14 Bis, sessenta metros que a França cronometrou
1906, Campo de Bagatelle: o 14 Bis decola sozinho e voa sessenta metros diante dos fiscais do Aeroclube da França, que assinam a ata.
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Bagatelle, 1906: o 14 Bis deixa o chão
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O aparelho que a França chamou de Oiseau de Proie nasceu pendurado. Antes de tentar voar sozinho, a estrutura de bambu, pinho e seda foi amarrada sob o dirigível número 14, o balão alongado que Alberto Santos Dumont já usava sobre Paris, e levantada no ar para o inventor medir estabilidade sem risco de espatifar tudo no chão.
Daí saiu o nome que ficou. O aparelho era o anexo do balão 14, o 14 Bis, e a numeração de série de um projetista teimoso virou, por acidente, a marca registrada de uma máquina.
A forma do bicho confundia quem olhava de fora. A célula grande de caixas ficava atrás e o leme dianteiro ia na frente, o que fazia o conjunto parecer voar de costas, empurrado por uma hélice e conduzido por uma caixa que o piloto girava lá na ponta.
O piloto voava em pé, dentro de um cesto de vime, com o corpo preso a um sistema que inclinava as extremidades das asas quando ele deslocava o tronco. Não havia manche, não havia assento e não havia instrumento algum além do olho de quem estava dentro.
O motor veio de outra indústria. Um Antoinette de origem náutica, encomendado a Léon Levavasseur, foi montado no aparelho depois de uma primeira tentativa com potência menor, porque as corridas de teste em Bagatelle mostravam o mesmo resultado repetido: rodava, chacoalhava e não saía do chão.
Setembro trouxe o primeiro sinal de que a coisa era possível. Numa das corridas, as rodas deixaram o gramado por poucos metros e o aparelho caiu logo adiante, com dano em parte da estrutura e nenhuma marca cronometrada que valesse como prova diante de terceiros.
Era exatamente disso que se tratava. Havia um prêmio em jogo, oferecido por Ernest Archdeacon para quem cobrisse vinte e cinco metros em voo, e havia uma comissão do Aeroclube da França encarregada de medir, cronometrar e assinar o que visse.
O ponto do caso não era decolar. Era decolar na frente de gente autorizada a registrar, num campo aberto, com testemunha, régua e relógio, e sair de lá com papel na mão.
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I O Episódio do Dia
A tarde em que a máquina saiu do chão sozinha
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Depois de meses de corrida sem sair do gramado, o aparelho enfim teve plateia oficial e cronômetro ligado.
23 de outubro de 1906, Campo de Bagatelle, Bois de Boulogne, Paris. O 14 Bis é rebocado para a pista de grama no fim da tarde, cercado por curiosos, jornalistas e pelos fiscais da comissão de aviação do Aeroclube da França, que já tinham marcado a distância no terreno.
O procedimento estava combinado. Nada de trilho, nada de catapulta, nada de vento de rampa: o aparelho tinha que correr sobre as próprias rodas, no chão plano, e se descolar pela força do motor que carregava.
O motor Antoinette pega, a hélice puxa e o conjunto começa a correr sobre a grama. Depois de algumas dezenas de metros de corrida, o leme dianteiro é inclinado e o aparelho sobe, com as três rodas fora do solo ao mesmo tempo.
O voo foi baixo e curto. Poucos metros de altura, uma trajetória levemente instável, e um pouso que terminou com o trem de pouso danificado, sem ferimento no piloto e sem dúvida entre quem estava no campo.
O que ficou registrado naquela tarde:
| · Distância percorrida em voo: cerca de 60 metros | | · Altura estimada: entre 2 e 3 metros | | · Duração: pouco mais de 7 segundos | | · Prêmio conquistado: a taça oferecida por Ernest Archdeacon para o primeiro voo acima de 25 metros |
Nenhum desses números seria história se a comissão do Aeroclube não estivesse ali com cronômetro, fita métrica e a obrigação de assinar embaixo. O que separou a tarde de Bagatelle de dezenas de tentativas anteriores em campo aberto foi a presença de quem tinha autoridade para atestar.
A homologação também exigia forma. A comissão registrou o tipo de aparelho, o método de decolagem, a distância medida no terreno e o tempo de voo, e o documento seguiu o mesmo trâmite de qualquer recorde esportivo da época.
Menos de três semanas depois, no mesmo campo e diante da mesma comissão, o aparelho repetiu a operação com folga. Foram cerca de 220 metros percorridos em pouco mais de 21 segundos, marca que entrou como o primeiro recorde de aviação homologado pela Federação Aeronáutica Internacional.
Ata da Comissão de Aviação do Aeroclube da França sobre o voo do aparelho de Alberto Santos Dumont no Campo de Bagatelle, com medição de distância e tempo. Comissão de Aviação do Aeroclube da França, ata de 23 de outubro de 1906 |
O título do registro entrega o que estava em disputa. Não se tratava de contar uma proeza, e sim de medir um fenômeno diante de terceiros, no formato de prova esportiva, com regra escrita antes e resultado carimbado depois.
É por causa desse papel que o episódio se sustenta hoje. Sem a ata, restaria o relato de uma multidão em Paris dizendo que viu uma máquina subir, sem distância aferida, sem tempo e sem responsável pela medição.
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II Neste Dia no Brasil
De Bagatelle a Kitty Hawk, a disputa que nunca fechou
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O 14 Bis não era um pássaro de metal. Era uma armação leve de bambu e pinho, revestida de seda, montada com células de caixa que davam ao conjunto uma silhueta de estrutura de papel gigante subindo pelo próprio esforço. |
A configuração ficou conhecida como canard, com a superfície de controle na frente do conjunto e a asa principal atrás. O arranjo dava resposta rápida ao comando, e a mesma rapidez tornava o aparelho difícil de manter estável quando a rajada batia de lado.
A linha do tempo do aparelho é curta:
| · 1906, julho: o 14 Bis é testado pendurado no dirigível número 14 | | · 1906, setembro: uma corrida termina com pequeno salto e dano na estrutura | | · 1906, outubro: o voo homologado em Bagatelle, diante da comissão | | · 1906, novembro: o recorde de cerca de 220 metros, no mesmo campo |
A disputa sobre quem voou primeiro nasceu ali e nunca foi encerrada. Nos Estados Unidos, Wilbur e Orville Wright já tinham feito o Flyer subir em dezembro de 1903, na praia de Kitty Hawk, e voado repetidas vezes nos anos seguintes em Dayton.
A diferença está no procedimento. Os Wright usavam trilho de lançamento e, em parte das operações, uma torre com peso que dava o empurrão inicial, além de aproveitarem o vento constante da costa da Carolina do Norte para ganhar sustentação.
O aparelho de Bagatelle decolou por meios próprios em terreno plano, sem trilho e sem contrapeso, e teve o feito medido por uma entidade independente na hora. Para a corrente que defende Santos Dumont, é essa combinação que faz o caso.
Do outro lado, o argumento é igualmente objetivo. Voo é voo, com ou sem plateia credenciada, e o Flyer voava havia três anos, com fotografia, testemunha e correspondência técnica farta a comprovar a operação repetida.
O que os dois lados raramente disputam:
| · Primeiro voo motorizado documentado: Flyer, dezembro de 1903, Kitty Hawk | | · Primeiro voo homologado por entidade esportiva na Europa: 14 Bis, outubro de 1906 | | · Primeiro recorde reconhecido pela Federação Aeronáutica Internacional: novembro de 1906 | | · Ponto em aberto: se decolagem assistida por trilho ou contrapeso descaracteriza o voo |
A escolha entre as duas versões depende do critério, não do fato. Quem define voo como sustentação controlada por motor fica com Kitty Hawk; quem define voo como decolagem autônoma, aferida e homologada, fica com Bagatelle.
O que o Brasil fez depois com o episódio é outra história, escrita em placa de praça, nome de aeroporto, cédula e livro didático, muito além do que a ata de 1906 mediu naquele fim de tarde.
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